A tradução respeita a inclusão

Neste mês, a Arca do Saber postou artigos sobre alguns tradutores e intérpretes, em homenagem ao Dia do Tradutor, em 30 de setembro. É importante ressaltar que não seria possível falar de todos os que atuam nessas respectivas áreas, mas tenham a certeza de que eles estão sendo representados por excelentes profissionais. E para encerrar essa homenagem, não poderíamos deixar de prestigiar aqueles que trabalham com acessibilidade, falando sobre duas colegas que além de tradutoras, são cidadãs, e que compreendem a importância do seu trabalho como uma forma de respeito e de preocupação com pessoas que, por distintas e inaceitáveis razões, ainda são marginalizadas pela sociedade. Audiodescrição e Libras trazem a esperança de solidificação da consciência coletiva quanto à necessidade de prover a todos o acesso a diversas produções, sejam elas no âmbito educativo, entretenimento, cultural e outros segmentos. Vamos saber um pouco mais sobre Ana Julia Perrotti-Garcia e Paloma Bueno.

 

Ana Julia Perrotti-Garcia é doutora em Língua Inglesa pela USP, mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP, bacharel em Letras pelas Faculdades Metropolitanas Unidas e graduada em Odontologia pela USP. Membro da ATA (American Translators Association), IMIA (International Medical Interpreters Association) e da ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes), Ana Julia também é professora de tradução e audiodescrição, palestrante, mentora da ABRATES, autora de glossários e livros voltados à tradução, principalmente da área médica, e organizadora do evento PROFT – Simpósio Profissão Tradutor.

 

 

 

 

 

Paloma Bueno é pós-graduada em Interpretação de Libras pela Unip e tecnóloga em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Metodista de SP. Membro da ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes), SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores), APILSBESP (Associação dos Profissionais Intérpretes de Língua de Sinais Brasileira de SP) e da WASLI (World Association of Sign Language Interpreters), Paloma também é professora e palestrante de Libras.

 

 

 

Agora é com elas:

Por que vocês escolheram trabalhar com tradução e interpretação?

ANA JULIA – A tradução me escolheu (risos). Minha formação foi na Cultura Inglesa, onde traduzir era quase um pecado mortal, pois éramos treinados a “pensar em inglês”. Um dia, uma editora me chamou para fazer revisão técnica de livros de odontologia. Da revisão técnica, migrei lentamente para a tradução. Sem perceber, fui “picada” pelo bichinho da tradução! (Ou, flechada pelo cupido da Tradução, se preferir!). Depois, resolvi fazer faculdade de Letras/Tradução na FMU. Foi uma fase muito difícil da minha vida, pois meus filhos eram bem pequenos, e eu tinha que administrar trabalho (aulas e traduções), família e faculdade. Mas tive professores maravilhosos, que são meus amigos até hoje, e grandes colegas que me fizeram ficar apaixonada pela tradução e não parar mais de estudar.

 

PALOMA – Confesso que não escolhi, a profissão me escolheu! (risos). Comecei voluntariamente na área de recursos humanos e no contexto religioso. Foi a comunidade surda que passou a me definir como intérprete; recebi vários convites para ajudar surdos em vários outros contextos e desafios como profissional. A partir disso, passei a estudar e a buscar formação específica em tradução e interpretação de Libras.

 

Qual foi o desafio mais impactante em suas carreiras?

ANA JULIA – Acho que não há desafio maior ou menor, quem é freelancer sabe: todo dia temos que nos reinventar, trabalhar para os clientes da melhor maneira possível, com qualidade e pontualidade, pois para aquela pessoa, aquela tradução é a coisa mais importante do mundo, seja ela um livro inteiro, um relatório de cirurgia, 10 itens em um catálogo de produtos ou um artigo científico.

 

PALOMA – Os desafios mais recentes foram na tradução de audiovisual. Pelo o que me lembro, nunca paguei para ver um filme de terror/suspense; precisei quebrar muitas barreiras, abrir o jogo com o contratante sobre minhas dificuldades. No começo, até passava mal no estudo do material que recebia; hoje, estou mais acostumada e encaro com mais facilidade.

 

Alguma vez vocês pensaram em desistir e mudar de profissão?

ANA JULIA – Ah, desistir, jamais; desistir é para os fracos (risos). Mas, mudar, sim. Penso nisso quase todos os dias (risos), e acho que é isso que dá sabor à vida: pensar na possibilidade de largar tudo, mudar completamente de ramo de atuação ou de área de tradução, ou me dedicar somente à audiodescrição ou à interpretação. É essa reflexão diária que nos dá a certeza de que estamos fazendo o que gostamos e porque gostamos, e não por falta de opção.

 

PALOMA – Nunca pensei em desistir da profissão de tradutora e intérprete de Libras, amo muito o que faço. Os desafios me movem.

 

Com tantos anos de experiência e já tendo realizado tantas atividades, há algo mais que ainda gostariam de realizar?

ANA JULIA – Se há! Ainda tenho muitos livros para escrever, muitas palavras para traduzir, muitas imagens para audiodescrever e muita coisa para ensinar. E, claro, tenho também alguns “planos secretos”. Mas, como tal, evidentemente não posso contar para vocês agora, né?

 

PALOMA – Hoje, sinto-me realizada, muito feliz profissionalmente. Gostaria de ver os surdos tendo mais acesso aos conteúdos básicos informativos e culturais. #porummundomaisacessível

 

E assim, conhecemos um pouquinho mais dessas excelentes profissionais que fazem a diferença.

O reconhecimento pela dedicação, empenho e ótimos trabalhos realizados pelos nossos colegas só fortalece a nossa própria categoria. Foi um privilégio e uma honra ter escrito esses últimos artigos em homenagem a todos os tradutores e intérpretes. Parabéns e sucesso a todos!

Por Ligia Ribeiro

 

Gostaria de ler seu comentário sobre o post.