O tradutor altruísta

Há aproximadamente uma semana, em um grupo de tradutores e intérpretes do Facebook do qual sou uma das moderadoras, perguntei aos colegas tradutores sobre quais assuntos eles se recusariam a traduzir. A princípio, esse questionamento foi feito por mera curiosidade. Particularmente, recuso traduzir qualquer material relacionado à matança ou a maus-tratos aos animais. Por experiência própria, aceitei um projeto de tradução sobre o inconcebível comércio de marfins na África, decorrente da matança de elefantes, que me levou à exaustão e, consequentemente, desencadeou efeitos colaterais físicos como: febre, depressão, angústia, insônia, etc. Com base nessa triste experiência, fiquei intrigada e curiosa para saber que projetos de tradução já foram declinados pelos colegas tradutores e quais eles jamais aceitariam realizar.

 

Posteriormente, outro colega teve a ideia de criar uma enquete com diversos temas. Abaixo, os cinco assuntos que, segundo a pesquisa, fariam com que os tradutores pensassem milhões de vezes antes de aceitar um projeto ou levassem um segundo para recusá-lo. Deixo claro que essa classificação não reflete o posicionamento de todos os tradutores brasileiros. Foi uma enquete realizada em um grupo específico, com a participação de alguns integrantes.

TOP FIVE

 

1-Qualquer documento ou texto relacionado à pedofilia.
2-Qualquer assunto referente ao nazismo ou correlato.
3-Qualquer texto que deixe clara a oposição contra o público LGBT ou atividades feministas.
4-Qualquer material referente a seitas satanistas.
5-Qualquer texto que incite o aborto.

 

 

 

Apesar de serem assuntos repudiados por grande parte da população brasileira, o interessante é que eles são “banidos” também do círculo de profissionais que trabalham em prol da divulgação de obras, desde textos mais simples até os mais complexos. Parece claro que o tradutor, linguista que se propõe a transmitir de forma mais imparcial possível as ideias dos autores das obras, também tem as suas restrições.

 

No debate, questionou-se o retorno financeiro como um dos parâmetros de aceitabilidade desses projetos, e o mais interessante foi saber que mesmo diante de uma oferta extremamente rentável, oferecida pela tradução de um texto contendo um desses assuntos, alguns tradutores optariam por não aceitá-la. Um dos principais motivos é a aversão ética. Antes de mais nada, o tradutor é uma pessoa como outra qualquer, um ser humano com valores éticos e morais, com opiniões simpatizantes ou contrárias a diversos assuntos, e é lógico que esses fatores interferem no lado profissional. Para alguns colegas, o dinheiro não se sobrepõe aos princípios e comportamentos sociais justos, verdadeiros e morais; para outros, a imparcialidade é um aspecto condizente com a profissão e deve ser mantido, ou seja, não importa o conteúdo do material a ser traduzido, o que importa é a realização do trabalho solicitado.

 

 

Nessa enquete, houve também relatos de tradutores que, diante de textos que mencionavam o abuso infantil, a violência física e/ou moral, os maus tratos e outras situações penosas e aterradoras, engoliram literalmente o choro ou se debulharam em lágrimas, mas não deixaram de se dedicar de corpo e alma ao projeto do cliente. No íntimo, há sempre a esperança de que os textos traduzidos, muitas vezes tão dolorosos, possam servir de material de apoio às questões extremamente delicadas como:

  • material investigativo sobre pedofilia que acarrete a prisão de criminosos;
  • pesquisa sobre uma nova medicação para uma doença potencialmente agressiva;
  • criação de novas leis em benefício e amparo às mulheres que sofrem de violência doméstica;
  • materiais diversos que trazem à tona assuntos lancinantes, mas com o objetivo de auxílio e defesa aos necessitados.

 

Segundo alguns tradutores, a aceitação ou não de um projeto depende da perspectiva da questão. Eles acreditam que o fim pode justificar os meios, ou seja, se o projeto for em prol de um bem maior, então a dor, a tristeza e o inconformismo diante de tantos fatos abomináveis poderá valer a pena ser encarado no processo tradutório. 

 

A alma do tradutor é imensurável. A defesa da vida, da paz, da consciência coletiva e da superação de obstáculos é um estímulo necessário ao tradutor para que ele suplante as próprias emoções e dê vazão à habilidade de traduzir, independentemente do material que lhe é entregue. O lado humano desse profissional aflora na tradução de uma palavra, de uma expressão ou de uma frase, e é a consciência da importância do seu trabalho que faz com que assuntos infinitamente angustiantes sejam, de certa forma, aliviados na esperança de dias melhores.

 

Autora: Ligia Ribeiro

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