IX Congresso ABRATES – Palestras I

O primeiro dia de congresso não poderia ser diferente. Saciada à fome matinal, nada como o barulho do motor (burburinho dos colegas) próximo aos boxes (salas) para a largada tão esperada: as palestras. A linha de partida era a mesma, as pistas eram múltiplas, mas a chegada consistia em uma só: a conquista de mais conhecimento, a ampliação do networking e a alegria de rever velhos e bons amigos e colegas de profissão.

Eis um breve resumo das palestras às quais tive o prazer de assistir em um sábado chuvoso, no dia 16 de junho de 2018:

 

Palestra:  O mercado de tradução: entre pela porta da frente!

Palestrantes: Elizabeth Herron-swee e Patricia Cardim

Elizabeth e Patricia tornaram-se sócias de uma empresa de tradução e compartilharam algumas de suas experiências relacionadas à formalização profissional. E qual seria a melhor forma de se obter essa formalização? A abertura de sua própria empresa. Nesta palestra, foi possível avaliar as cinco etapas relevantes que envolvem todo o processo empresarial:

1- Como estabelecer a sua empresa: verifique o tipo de empresa que mais se enquadra às atividades que realiza ou pretende realizar, contrate um contador para auxiliá-lo nesse processo e como suporte às questões legais, elabore um website da sua empresa, crie um e-mail profissional, confeccione os seus cartões de visita e faça o marketing comercial.

2- Como se posicionar no mercado: defina e conheça bem quais são as suas especialidades, saiba mostrar qual é o seu diferencial, componha o seu preço com base nas suas despesas mensais, elabore um orçamento contendo os termos de serviço e modelos de fatura para clientes brasileiros e estrangeiros, valorize o seu trabalho e aprenda a negociar os valores e os prazos com os seus clientes.

3- Como encontrar clientes e quais os critérios que envolvem as agências de tradução e os clientes diretos: tenha sempre currículos e/ou portfólios adequados às suas áreas de atuação, faça a captação de clientes por meio de sites profissionais e de participações em eventos e em redes sociais e amplie o seu networking.

4- Como se relacionar com os clientes: estabeleça uma comunicação clara, eficaz e efetiva com os seus clientes, mostre confiança ao contatá-los pessoalmente ou por telefone e transmita o seu profissionalismo.

5- Como evoluir profissionalmente: realize cursos voltados às áreas em que atua ou que deseja atuar, estabeleça parcerias com outros profissionais, por exemplo, revisores, invista em CAT Tools, faça parte de associações, participe de eventos de tradução e das áreas de sua especialidade, obtenha certificação e pense no seu crescimento profissional.

 

Palestra:  Consegui o meu primeiro trabalho. E agora?

Palestrante: Guilherme R. Basilio

E agora é só alegria. Com certeza, conseguir o primeiro trabalho é positivo, mas é preciso cuidar desse trabalho e não o menosprezar. Como disse Guilherme, o processo tradutório é como um processo cirúrgico contendo três procedimentos importantes: diagnóstico, cirurgia e pós-cirurgia.

Ao receber o seu primeiro trabalho, o tradutor deve ler as instruções, entender o que o seu cliente está solicitando e esclarecer as dúvidas antes de iniciar o trabalho. Essa fase é o diagnóstico. Analise os detalhes do projeto, observe se há necessidade de conversão do seu formato e se você tem algum software específico para essa conversão, veja se no seu computador há a mesma fonte do documento original ou se precisará comprá-la, o que poderá ser oneroso. Esses são apenas alguns exemplos, mas precisam ser levados em conta na análise do projeto.

A cirurgia propriamente dita refere-se aos procedimentos durante a tradução, por exemplo: a análise da coerência, a verificação da necessidade de inclusão de pausas, a mudança na pontuação e a própria fluidez do texto.

Após a tradução, o cuidado deve ser redobrado com: terminologias empregadas, ortografia, gramática e diagramação, enfim, é preciso revisar o que foi traduzido minuciosamente (pós-cirurgia).

Um tradutor deve entender que o seu trabalho vai além da simples tradução. O processo de revisão é extremamente importante e deve ser realizado com muito cuidado.

 

Palestra: O método Harvard de negociação para tradutores e intérpretes

Palestrante: Claudio Roberto G. Pereira

O primeiro passo para uma negociação é a preparação; o que negociar, qual é o seu objetivo e quais os critérios que compõem o processo como: preço, produto/serviço, prazo e formas de pagamento. É preciso também:

– entender o cliente e saber identificar o que ele realmente deseja; pesquise, saiba tudo o que for possível sobre o seu cliente;

– criar um valor agregado, ou seja, mostrar o que é possível proporcionar ao cliente além do que ele necessita;

– estabelecer uma comunicação efetiva, transmitindo confiança ao cliente;

– usar da empatia e evitar situações conflitantes;

– pensar em um plano B quando perceber que a oferta não está alinhada ao seu objetivo. Se o cliente quer pagar um valor inferior ao que você pleiteia, pense em uma alternativa possível para não perdê-lo;

– analisar se a proposta é justa e se atende aos critérios estabelecidos por ambas as partes;

– criar confiança e simpatia para não comprometer futuras negociações;

– manter o foco no interesse em comum e não nas pessoas envolvidas;

– pensar na estratégia que usará para a negociação, na margem de lucro, nos possíveis descontos e, principalmente, na questão ética.

 

Há alguns tipos de negociação:

  • negociação competitiva: só uma parte é ganhadora;
  • negociação cooperativa: ambas as partes lucram;
  • negociação transacional: depende de limites orçamentários e
  • negociação relacional: relaciona-se a um serviço que já foi executado e que pode servir de ancoragem para um novo contrato.

 

E há alguns estilos relacionados ao negociador:

  • inovador: cheio de ideias inspiradoras;
  • apoiador: o que analisa todos os detalhes para servir de suporte diante de uma tomada de decisão;
  • dominador: quer sempre ter o controle da situação e
  • analítico: ávido por planilhas e cálculos.

 

Claudio mencionou que em uma negociação não há vencedores. No entanto, acredito que em uma negociação de sucesso ambas as partes devam ser vencedoras; tanto o cliente como o prestador de serviço precisam sair satisfeitos.

 

Palestra: Audiodescrição: traduzindo imagens em palavras

Palestrante: Ana Julia Perrotti-Garcia

Falar em audiodescrição é pensar no quanto esse trabalho é essencial às pessoas com deficiência visual. Cada vez mais, há pessoas interessadas nesse gênero de tradução; o mercado está precisando desses profissionais. Mas será que qualquer um pode ser audiodescritor? Sim. No entanto, é preciso estudo, pois há regras específicas para que o público-alvo consiga entender o que está sendo descrito.

Nesta palestra, os participantes puderam entender melhor o mecanismo da audiodescrição por meio de um áudio que a palestrante disponibilizou logo no início da sua apresentação. Foi possível ouvir uma narração sem e com audiodescrição e perceber a real diferença entre elas. Ana Julia explicou sobre os tipos de audiodescrição possíveis: imagens estáticas, tridimensionais, dinâmicas, gravadas e ao vivo.

A audiodescrição deve ser a mais isenta possível e transmitir só os aspectos relevantes. Em um vídeo, por exemplo, há sons tão óbvios, como o toque de um telefone, que não há necessidade de repeti-los nos diálogos. 

Outro ponto fundamental da audiodescrição é a maneira como o audiodescritor descreve o que ele está vendo. Ao descrever uma imagem estática, por exemplo, é preciso realizar a descrição de cima para baixo, de dentro para fora, do genérico para os detalhes. Parece simples, mas esses critérios são essenciais para que uma pessoa com deficiência visual possa entender o que está sendo descrito.

Certamente, assistiremos a mais palestras sobre a audiodescrição em eventos futuros, pois é um mercado em crescimento.

 

Palestra: Erros bobos e não tão bobos que não devemos cometer

Palestrante: João Vicente de Paulo

Achei essa palestra ousada e perfeita ao seu propósito: o de alertar tradutores iniciantes e já experientes quanto à necessidade de atenção e de revisão constante do seu trabalho antes da sua entrega. Por que ousada? Porque muitos tradutores seniores também erram e ao apresentar alguns desses erros, João Vicente acabou gerando confiança àqueles que estão ingressando na carreira, fazendo-os perceber que todos podem cometer deslizes na tradução.

Um dos principais erros é a falta de atenção. Talvez, por ter aceitado um trabalho com prazo apertado, o tradutor acabe negligenciando a atenção em prol de uma entrega rápida do projeto.  

Outro erro refere-se à falta do domínio do português. Para quem faz traduções de um idioma estrangeiro para o português brasileiro, é IMPRESCINDÍVEL que conheça a gramática e escreva bem no idioma de chegada. Para isso, há cursos no mercado, há fontes de consulta disponíveis na internet e até neste blogue “Arca do Saber”, é possível encontrar artigos com conteúdo gramatical.

Outros erros que normalmente ocorrem são:

– falta de estilo (tradução ruim, pobre);

– falta de percepção de nuances da língua (discurso direto);

– falta de compreensão do texto original. Se você leu e não entendeu o que leu, sua tradução não será coerente e coesa com o texto fonte;

– falta de leitura minuciosa. Leia e releia a sua tradução antes da entrega;

– falta de “desconfiômetro”.  Se ao ler algo no texto que lhe chamou a atenção, pare e analise, pesquise e veja se está correto. Às vezes, pode haver algum erro no texto original. Ao constatá-lo, avise o cliente. Ele lhe agradecerá e verá o quanto você é profissional e atento aos detalhes do projeto.

Desconfie sempre de algo que pareça estranho e mantenha a uniformidade da tradução do início ao fim.

 

Palestra: Tradução automática e tradutores: ideias sobre o futuro

Palestrante: Silvio Picinini

A última palestra de sábado mostrou como a tradução automática pode servir de auxílio ao tradutor, além de abrir uma nova possibilidade de atuação: a pós-edição de textos.

Silvio mostrou como a máquina (computador) evoluiu. Programas como Verifika, XBench, Checkmate e o próprio Google Translator estão literalmente estudando e se aperfeiçoando. Apesar de serem programas, eles aprendem com o volume e a frequência de informações inseridas em seu sistema.

Claro que ainda há muito o que aprender. O Google Translator, por exemplo, ainda tem dificuldades com certos termos como: definições de gênero, dependendo da palavra, negações e algumas outras particularidades.  Ele cria a tradução a partir de dados do passado, ou seja, dados armazenados em seu sistema. Portanto, quanto mais corretos forem os dados, mais precisas serão as traduções. Com a pós-edição, o tradutor poderá fornecer ao programa novos parâmetros e fazer com que ele se aperfeiçoe cada vez mais.

A pós-edição é um mercado promissor e em crescimento. O tradutor precisa entender que a automatização faz parte da nossa vida profissional. O futuro bate à nossa porta!

E assim foi o primeiro dia do congresso, seguido de confraternização pelos bares e restaurantes do Rio de Janeiro.

NOTA: Participei também de uma mesa redonda sobre o Programa de Mentoria da ABRATES “Caminho das Pedras”. Falarei mais sobre ele em um próximo post.

 

Autora: Ligia Ribeiro

4 thoughts to “IX Congresso ABRATES – Palestras I”

  1. Ligia.
    Obrigado por suas gentis palavras. Faltou dizer (porque eu não disse) que o layout de duas palestras num mesmo salão, sem divisória, todos com fones de ouvido, forçou-me a “esticar” a teoria e a cortar a parte prática, de interação com a platéia, trabalhando juntos e resolvendo situações reais. Fazer isso, seria, no mínimo, indelicado (se não caótico) para com o outro palestrante…
    A tecnologia da “sala bífida”, pelo que ouvi, veio para ficar. É aprendermos a trabalhar com (ou apesar de) ela.

    1. Concordo com a dificuldade do layout da sala. É verdade, não incluí essa informação. Acho que esse formato não agrada muito aos palestrantes nem aos participantes, mas se for algo que veremos com bastante frequência nos próximos eventos, o jeito é nos acostumarmos com ele. Obrigada. Abraço.

  2. Ligia.

    Gostaria de agradecer pela sua presença na minha palestra sobre o “Método Harvard de Negociação”. Seu relato tão detalhado mostra que o maior objetivo da palestra foi alcançado: o compartilhamento do conhecimento.

    Obrigado e Parabéns!!!!

    Claudio Pereira

    1. Olá, Claudio!
      Muito obrigada pela excelente palestra. Pena que o tempo foi curto, mas absorvi cada detalhe e, com certeza, quero colocar em prática no meu dia a dia.

      Muito sucesso!

      Abraços
      Ligia

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