Por que as produções audiovisuais são tão criticadas?

Este artigo seria publicado na próxima semana, mas foi antecipado quando me deparei com uma discussão sobre erros em traduções de projetos audiovisuais, em um grupo de uma rede social. Essas discussões geralmente acabam em desentendimento exasperado entre alguns participantes, pois os ânimos se alteram com facilidade. Por isso, julguei que hoje seria o momento adequado para a publicação do artigo:

POR QUE AS PRODUÇÕES AUDIOVISUAIS SÃO TÃO CRITICADAS?

Pela ampla visibilidade. “O que os olhos não veem, o coração não sente… e a boca fica fechada (livre arbítrio)”. Embora essa frase tenha um teor sarcástico, a crítica só se torna possível quando o objeto em questão é visível aos olhos de quem a faz.

Às vezes, essa palavrinha “Crítica” é tão injusta, não é mesmo? Mas ela faz parte do universo tradutório. Nem todo mundo gosta de recebê-la, mas quando é correta e embasada em fatos verdadeiros, é de fundamental importância para o nosso aprimoramento. A crítica deve ser construtiva; em hipótese alguma, aniquiladora. No entanto, sempre há pessoas que optam por fazê-la em prol de uma discussão mais acirrada. A expressão “Vamos botar lenha na fogueira” é o clímax que lhes dão o prazer completo… Contudo, deixemos de lado esse contexto psicológico e nos atentemos aos esclarecimentos direcionados aos leigos e aos iniciantes que não possuem o conhecimento adequado sobre as particularidades da legendagem e da tradução para dublagem, duas áreas que fazem parte do segmento audiovisual. Caro leitor, sente-se diante do seu computador, pegue a pipoca e curta o que a Arca do Saber apresentará a seguir.

 

Produtoras/estúdios na largada da Fórmula 1
Um dos principais problemas das produtoras e dos estúdios é lidar com o prazo, haja vista que uma produção audiovisual depois de pronta precisa ser veiculada nas mídias televisivas ou cinematográficas o mais rapidamente possivelmente. Portanto, a correria é geral e desencadeia alguns entraves no meio do caminho.

Redução de custo
O recrutamento de bons prestadores de serviço requer um investimento financeiro por parte dos contratantes, no entanto, temos observado o contrário: troca de profissionais qualificados por outros que ainda não possuem a destreza adequada para a realização do trabalho, contratação de tradutores que não são falantes nativos do idioma de chegada (traduzido) e que escolhem termos incorretos, inadequação de atores aos papéis representados, ausência de revisores, falhas na edição, etc. Muitas vezes, o barato sai caro, pois pode impactar no custo e no prazo, em decorrência de regravações que podem ser necessárias, inclusive por reclamações dos telespectadores.

Ausência de revisor
O papel do revisor é essencial. Com o olhar mais aguçado, ele capta possíveis incoerências, abstrações ou inclusões desnecessárias realizadas pelo tradutor. No entanto, há empresas que não contratam revisores ou, se contratam, esses profissionais não fazem a revisão dos projetos em sua totalidade; alguns só revisam a parte técnica como a configuração correta, no caso de legendas, ou os erros gramaticais; outros, fazem a revisão por amostragem, segundo eles, por falta de tempo para uma revisão integral do projeto.

Múltiplos profissionais trabalham no mesmo projeto
É muito comum a contratação de múltiplos tradutores para a realização de uma série com vários episódios, por exemplo, com o objetivo de otimizar a entrega. Quando isso ocorre, é imprescindível a criação de um glossário que deve ser compartilhado entre os tradutores envolvidos para que haja coerência de vocábulos, termos ou expressões empregadas. Entretanto, nem sempre essa poderosa ferramenta é utilizada de forma apropriada. Destacam-se as seguintes desculpas por parte dos tradutores (sem generalizar): falta de tempo em alimentá-lo, esquecimento, o “achismo” de que o colega certamente realizará a mesma tradução para um determinado termo, entre outros.

Tradutores diferentes para produções diferentes
Em sequência ao que foi dito no item anterior, nem sempre os mesmos tradutores das legendas de uma série serão os mesmos que realizarão os textos para dublagem. Lembre-se de que o prazo é um fator crucial, portanto, quando uma produção for ao ar, tanto a legenda como a dublagem, na maioria dos casos, serão disponibilizadas simultaneamente aos espectadores. Em virtude do prazo, as empresas/estúdios contratam tradutores diferentes. E como não há um glossário padrão para todos os envolvidos em ambas as produções, as diferenças são mais facilmente notadas.

A dublagem não é igual à legendagem
Muito já se falou sobre as diferenças entre as duas, mas é sempre bom reforçar. Na tradução para dublagem, as particularidades do sincronismo, a possibilidade do uso de uma linguagem mais natural correspondente à fala cotidiana e a inserção de frases mais longas são alguns dos parâmetros passíveis de serem seguidos. Na legendagem, a construção gramatical deve ser bem elaborada, as interjeições devem ser evitadas em prol da inserção de informações mais relevantes à trama, há limite de caracteres e outros aspectos. Enfim, há diferenças e elas precisam ser compreendidas e respeitadas.

A legenda nem sempre começa do zero
Nem sempre o processo de legendagem de um filme, por exemplo, começa do zero, com o tradutor sendo responsável pela inclusão do texto e das marcações de entrada e de saída das falas. É muito comum o recebimento de arquivos com essas marcações já sinalizadas, o chamado “template“. Lidar com esses templates não é tão simples assim, principalmente para os iniciantes em legendagem, pois há parâmetros pré-definidos para a composição de linhas, para o número de caracteres por linha e por segundo, entre outras particularidades. O template serve de base para que o tradutor insira a tradução dentro de um espaço pré-determinado. Neste caso, a relevância deve prevalecer. Entretanto, o tradutor pode sentir dificuldade na escolha do texto e acabar optando por soluções imprecisas ou não tão bem aceitas pelo público.

Escolhas não acertadas
Ah, as escolhas! As escolhas são cruciais ao tradutor. Há escolhas que agradam a gregos; várias, a troianos; algumas, a gregos e a troianos; outras, nem ao papa. Essas escolhas podem ser a glória ou o calvário de um tradutor. Se for uma “grande sacada”, louvores, aplausos e os emoticons de palminhas, coraçõezinhos e outros gifts animados inundarão as mídias sociais, enaltecendo a criatividade do profissional. Em contrapartida, se a escolha não for bem aceita… danou-se! Contudo, o tradutor não deve se abater perante às críticas. Se não foi feliz em uma determinada escolha, paciência. Com certeza, na próxima, o resultado será melhor. É seguir em frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda com relação a este item, é necessário uma observação à parte: às vezes, as escolhas feitas anteriormente pelo tradutor são trocadas pelo revisor ou pelo próprio estúdio ou cliente. O público não tem essa informação e, consequentemente, culpa o tradutor.

Pobres dos iniciantes
Como sofrem os tradutores iniciantes da área audiovisual! Muitas vezes, são massacrados pelos próprios colegas (de novo, sem generalizar), que também já foram iniciantes ou por terceiros que não possuem o conhecimento adequado, mas gostam de criticar o trabalho alheio.

Ninguém nasceu sabendo. Ninguém é perfeito. Todos erram. E quem está iniciando precisa adquirir experiência ou, do contrário, não conseguirá o aprimoramento necessário para se tornar um profissional qualificado. O problema é que as produções audiovisuais acarretam visibilidade e qualquer erro cometido gerará uma repercussão negativa extrema, muitas vezes, desnecessária. Se o telespectador visualizar um erro, deve procurar o canal em que a produção foi veiculada e enviar uma reclamação. Usar as redes sociais para críticas agressivas demonstra falta de equilíbrio emocional.

Bom, esses são alguns dos critérios que compõem o trabalho de um legendador e de um tradutor para dublagem. Ainda há dezenas de conversas de bastidores, mas isso fica para um próximo episódio.

Até mais!

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