Divulgar ou não os meus valores?

Essa é uma pergunta passível de discussão, levando em consideração que há diversas opiniões diferentes sobre o assunto. Portanto, neste post, estão sendo abordadas apenas sugestões, que podem ser aceitas por alguns colegas e rejeitadas por outros. Afinal, cada um tem o seu próprio ponto de vista. Particularmente, nunca fui adepta à divulgação de valores que cobro pelos meus trabalhos, a não ser para agências, clientes (lógico) e alguns amigos mais próximos. Considero um pouco estranho compartilhar essa informação com o público em geral. Se você pensar bem, é como se estivesse divulgando seu salário no noticiário das nove o que, na minha opinião, não é um procedimento comum.

 

Por outro lado, muitos colegas alegam que essa é uma maneira de prover aos tradutores uma noção sobre os valores atuais de mercado. De certa forma, não deixa de ser verdade. Quem está ingressando nessa área está ávido por informações, principalmente sobre precificação. São profissionais que não têm ideia de quanto cobrar por um projeto de tradução, que não conhecem a diferença entre os valores pagos pelas agências brasileiras e as do exterior, que não sabem como compor o seu orçamento e muito menos o seu custo final. Entretanto, é preciso cuidado, pois não é uma regra geral. Esse referencial, por exemplo, não serviria a quem tem experiência, trabalha há anos com tradução e já possui sua carteira de clientes. Esses profissionais têm a sua planilha de orçamento elaborada e já sabem quando podem, querem ou precisam negociar. Portanto, esses valores dificilmente seriam condizentes com a sua realidade.

 

Mesmo para aqueles que estão iniciando, os preços pagos pelas agências podem ser negociáveis e também sofrer variações como:

formação e experiência do tradutor – por exemplo, um tradutor formado em direito e com experiência traduzirá mais rapidamente e de forma concisa as terminologias específicas da sua área de atuação, podendo aumentar a sua produtividade e o valor que receberá pelo projeto final;

excelente conhecimento de um idioma estrangeiro – outro tradutor pode ter um excelente domínio de uma língua estrangeira, ter experiência e facilidade para realizar versões e, consequentemente, ganhar mais pelos projetos realizados;

infraestrutura da agência – uma agência pode oferecer valores mais atrativos em virtude de um volume maior de serviços solicitados pelos clientes, possibilitando aumento no valor pago por palavra traduzida.

Há muitas variáveis em uma negociação. Esses são só alguns exemplos, passíveis de quaisquer alterações, e que poderiam impactar na estipulação de valores. Por isso, estabelecer uma tabela com valores fixos não seria coerente, pois não refletiria a realidade do mercado.

 

Aproveitando o assunto deste post, outro ponto interessante a ser discutido é o cuidado com a divulgação de valores entre os próprios colegas que prestam serviço ao mesmo solicitante. Em alguns gêneros de tradução é comum haver um intermediário servindo de ponte entre o cliente e o grupo de tradutores com o qual ele trabalha. Normalmente, ao término do mês, há a conferência dos projetos e dos respectivos valores que cada tradutor irá receber. É nessa hora que o tradutor deve estar atento à troca de e-mails. O tradutor deve tomar cuidado para não enviar informações sobre o montante que irá receber a todos os participantes do grupo. Sua mensagem deve ser apenas encaminhada ao solicitante. Não há sentido copiar os colegas em uma mensagem que contém a relação dos projetos que realizou e seus respectivos valores. “Salário” é algo muito pessoal e confidencial. Por que cargas d’água você compartilharia essa informação com pessoas que nunca viu na vida? Não tenho nada contra o compartilhamento de dados entre amigos ou entre colegas com os quais eu me sinta confortável em trocar esse tipo de informação, mas divulgar meus valores publicamente ou com quem não tenho intimidade é algo que me incomoda. É como se caracterizasse uma violação da confidencialidade firmada entre mim e a agência/cliente/intermediário. E ainda que trabalhássemos para o mesmo solicitante, acho que não deveríamos compartilhar essas informações. Você já viu funcionários de um mesmo departamento de uma empresa comunicando abertamente seus salários? Pois é, nem eu. Pense nisso.

 

Ainda falando sobre a divulgação de valores, você poderia indagar: “E se algum colega me perguntar sobre quanto a agência X me paga?” Se você não se sentir confortável em responder, diga apenas que depende de cada projeto e de algumas condições acertadas diretamente entre você e a agência.  Fale em termos gerais. E se a pessoa quiser mais detalhes, você pode informar uma faixa de valores médios que a agência normalmente costuma pagar a quem está iniciando uma parceria com ela.

 

Se você divulga o seu preço aos clientes, por que não fala abertamente sobre o quanto cobra para realizar uma tradução?” Primeiro, porque só é possível falar em preço depois de avaliar o projeto. Lembra do post “O meu primeiro projeto de tradução”? (clique no link). Então, em um dos itens eu ressalto a importância de avaliar o projeto antes de aceitá-lo e, principalmente, antes de negociar o seu valor final. E segundo, porque o valor que cobro só diz respeito ao cliente ou à agência que solicita o meu serviço. É uma informação pessoal que não precisa ser divulgada a terceiros.

 

É aconselhável que divulgue o preço que cobro no meu site comercial?” Pode haver colegas que queiram incluir essas informações no próprio site para que o cliente já saiba de antemão o valor que será cobrado pelos projetos. Mas aí eu pergunto: “Como é possível saber o valor sem ter visto o projeto?” Com certeza, o preço mencionado no site sofrerá reajustes, levando em consideração alguns aspectos, como por exemplo: edição, conversão de arquivos, queima de legenda, marcação, etc. O correto é solicitar ao cliente que lhe envie o projeto para que você possa analisá-lo e, posteriormente, elaborar um orçamento.

 

Resumindo, na minha opinião, uma tabela contendo uma média de valores praticados pelas agências poderia ser válida, mas apenas como referência básica a quem está iniciando na tradução. Já em se tratando de clientes, esses valores não seriam validados, pois há muitas variáveis em jogo durante uma negociação direta entre o tradutor e a agência/cliente. E quanto à pergunta inicial deste post, só você pode saber se quer divulgar ou não o seu preço, para quem, onde, quando e como. Respeitar a opinião alheia é o princípio básico de uma boa comunicação.

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