Empresa versus tradutores – o outro lado da moeda

moeda

Este post trata de relações entre empresas e tradutores independentes e agências de tradução. Muitos tradutores mencionam que as empresas estão sempre solicitando redução de valores e que elas não entendem o trabalho exaustivo que o tradutor tem para realizar determinado projeto, pesquisando, adequando termos e orações, usando ferramentas de tradução assistida (CAT Tools), além de revisão de texto, formatação e todos os detalhes já tão conhecidos no meio tradutório.

É claro que o tradutor quer receber o valor justo, considerando todo o trabalho que teve na tradução de um determinado projeto, e eu concordo plenamente com isso, mesmo porque sou tradutora e sei o quanto os preços e os prazos de pagamento acabam sendo geradores de discussão. Mas há outro lado que alguns colegas tradutores talvez ainda não conheçam, principalmente os iniciantes.

Chutar, driblar, cabecear e, claro, marcar o gol!

Não é instrução para craques de futebol, mas sim para “players, integrantes das equipes internas de uma organização. Vejamos o simples exemplo de uma assistente que tem, dentre várias atividades que realiza, a incumbência de traduzir documentos corporativos. Estando no escritório, o processo torna-se mais árduo porque ela não tem ao seu dispor uma CAT Tool para auxiliá-la, visto que as empresas geralmente não permitem a instalação desses programas. A única forma para realizar o projeto é levar o material para casa e passar a noite traduzindo, sem receber qualquer adicional por esse trabalho.

Você me perguntaria: “E quanto às adequações de termos, à fluidez do texto e à revisão ortográfica?” Apesar de haver a possibilidade da assistente se atentar a todos esses pormenores, visto que ela atua na área e já está familiarizada com termos específicos, há empresas que mesmo assim preferem que as traduções simples sejam realizadas internamente, com o intuito de redução de custos.

grande venda

Big Sale!

Quando a empresa opta por contratar terceiros para realizar uma tradução, normalmente ela abre uma licitação, seja ela informal ou formal, com o intuito de receber propostas de agências e tradutores independentes. Muitos consideram reduzir seus valores para não perder a oportunidade, mas outros não concordam, com base no alto custo e no trabalho árduo que terão que despender para a realização do projeto.

Você diria: “Até aqui não há novidade alguma”. Sim, mas regressemos ao interior da empresa, onde o gestor está pressionando sua assistente, por exemplo, para conseguir reduções a qualquer custo. Se dentre as propostas recebidas houver agências ou tradutores que estejam sendo contatados pela primeira vez, é quase certo (não generalizando) que a assistente requeira redução de valores, com a alegação de que a empresa pode contatá-los novamente para outros projetos. E, na atual situação econômica, quem não vai querer que isso ocorra?!

No caso de antigos parceiros, que realizaram anteriormente traduções para a referida empresa, a pressão será ainda maior. A assistente terá que “se virar nos 30”, literalmente, para obter um desconto. E a forma é tentar lembrá-los da parceria de tantos anos, da necessidade de adequação dos valores à realidade vigente naquele momento, da intenção de continuar mantendo tal parceria por longa data, etc.

O mote nas empresas é: “Cortem as cabeças!”, digo “Cortem os gastos!”

orçamento

Quem é o culpado?

O culpado é a temível palavrinha que está sempre presente nas organizações: “budget“. Ele é culpado por tudo isso. Todos os anos há redução do budget para que a empresa possa utilizar seu orçamento anual em prol de projetos que a torne mais competitiva no mercado e traga mais retorno financeiro. Toda empresa tem um planejamento financeiro anual para obter lucro e, se falarmos em multinacionais, a cobrança sempre vem dos headquarters, localizados em outros países.

Para você entender melhor, a ordem de redução de valores parte do CEO (Diretor Executivo), atinge as empresas afiliadas no mundo todo e vai se espalhando pelas áreas internas das organizações. E quando o termo “cortar gastos” surge, há sempre uma priorização. Não estou dizendo que os projetos de tradução não tenham valor e que são deixados na última fila de prioridades, até porque há documentos que necessitam de tradução legal (juramentadas, por exemplo) para que algum projeto possa ser desenvolvido o mais depressa possível. Mas os gestores procuram de alguma forma reduzir qualquer contrato com fornecedores, e isso inclui também as agências de traduções e os tradutores diretos. Por isso, as empresas “clientes” sempre buscam uma forma de obter desconto sobre o valor do projeto.

O intuito, como falei acima, não é de menosprezar o trabalho do tradutor ou incentivá-lo a reduzir seus valores, mas é mostrar o outro lado da moeda, que muitas vezes não é tão visível e que é impactante nas decisões referentes à redução de custos pelas organizações. Claro que temos que valorizar nosso trabalho, mas também temos que compreender o cenário empresarial, cada vez mais acirrado e que também sofre com questões político-econômicas mundiais conflitantes. E isso acaba sendo repassado a nós, tradutores.

Quem sabe esse cenário pouco inóspito não acabe melhorando e tenhamos negociações mais frutíferas no futuro?!

Por Ligia Ribeiro

Gostaria de ler seu comentário sobre o post.