A brasilidade tradutória nas terras do Tio Sam

Nesta semana, a Arca do Saber homenageia duas mulheres fortes e empoderadas que levaram o seu brasileirismo, aliado à competência e ao exímio desempenho de suas atividades dentro das áreas de tradução e de interpretação, para terras longínquas. O cartão de visitas dessas duas colegas são seus nomes já consagrados: Giovanna Lester e Melissa Harkin.

 

Giovanna Lester ou Gio Lester, como muitos a conhecem, tem em seu currículo várias atribuições: escritora, palestrante, professora, mentora, presidente de comitês consultivos e outros importantes trabalhos. Gio mora em Miami. Ela é uma tradutora e intérprete de sucesso. É credenciada e atua como secretária geral da ABRATES (Associação Brasileira dos Tradutores e Intérpretes), e certificada pela ATA (American Translator Association). A lista de cargos assumidos por essa exímia profissional é extensa e pode ser conferida em seu site “GioLester.com“. Já traduziu e interpretou para diversos setores, como: marketing, farmacêutico, financeiro, jurídico e muitos outros. Como ela mesma diz, se o cliente precisa dela, é lá que você a encontra.

 

 

Melissa Harkin mora em Connecticut. Ela é tradutora especializada em conteúdo jornalístico, jurídico, de energia e de desenvolvimento sustentável. Desde 2012, ela resolveu se dedicar em tempo integral à tradução, prestando serviços a diversos bancos de desenvolvimento nacionais e internacionais, grandes ONGs internacionais e empresas multinacionais. Bacharel em Direito e com MBA em Gestão Estratégica, ela é membro da ATA, ABRATES, NETA (Associação de Tradutores da Nova Inglaterra), coeditora do blog da Divisão de Língua Portuguesa da ATA e administradora do New York Circle of Translators (NYCT). 

 

Gio e Melissa poderiam focar exclusivamente nos seus projetos, carreiras e em suas vidas pessoais, no entanto, por saber das dificuldades dos iniciantes, pois já vivenciaram as etapas de ansiedade, incerteza e receio que estão atreladas ao início de qualquer profissão, elas se importam com os colegas, escrevem artigos para ajudá-los a entender alguns parâmetros específicos da tradução e da interpretação e ministram palestras presenciais ou online com o intuito de compartilhar todo esse conhecimento adquirido ao longo dos anos. Então, que tal saber um pouco mais sobre as duas? Elas falam diretamente dos “States” com vocês.

 

Por que vocês escolheram trabalhar com tradução e/ou interpretação?

GIO – Na verdade, foi um acidente de percurso. Era 1982 e o Brasil vivia uma época difícil. Eu trabalhava em uma agência de turismo, no receptivo internacional. Era a secretária bilíngue e guia dos VIPs que visitavam a cidade. Perdi o emprego e, como já trabalhava com idiomas há algum tempo, uma amiga me pediu para ajudá-la com uma tradução. Foi um trabalho árduo e eu aprendi muito. Para começar, realizávamos turnos na máquina de escrever – uma Olivette Lettera. Uma fazia a sight translation (ler o texto no idioma de chegada) e a outra datilografava. Os clientes gostaram e daí virou meu ganha-pão. Passado alguns anos, virou profissão amada.

MELISSA – Acho que a tradução me escolheu. Eu estudei Direito, fiz MBA em Gestão Estratégica e trabalhei para grandes ONGs e multinacionais, mas sempre acabava me dedicando à tradução e às aulas de inglês no fim do dia e nos fins de semana. Sempre tive paixão por línguas, culturas e viagens, e a tradução te transporta para outros lugares e te insere em outras culturas.

 

Qual foi o desafio mais impactante em suas carreiras?

GIO – Deixar de vê-la como um bico, assumir a realidade de ser uma profissional e crescer dentro da minha profissão. E não era só eu que não via meu trabalho como uma profissão: a sociedade via aquilo como bico, não havia associações profissionais, grupos de Facebook, mentoria da ATA ou Abrates… Era difícil.

MELISSA – Vencer o medo. Muitas pessoas diziam que eu jamais poderia sobreviver apenas da tradução, que os ganhos seriam baixos e que eu não teria a segurança e os benefícios de um emprego comum. Depois de vencer o medo de dar errado, eu meti a cara e deu tudo certo. Hoje, tenho clientes em todos os continentes, presto serviço para as principais ONGs do mundo, bem como para empresas multinacionais e bancos de desenvolvimento, e não fico um dia sem trabalho.

 

Alguma vez vocês pensaram em desistir e mudar de profissão?

GIO – Várias vezes. Sem o respaldo profissional, conhecimentos de negócios e boas práticas, era muito difícil mesmo me sustentar. As poucas vezes em que o pensamento me ocorreu, foi devido a situações financeiras difíceis de contornar. A profissão em si sempre me deu muitas razões para continuar: o constante aprendizado, poder contribuir para melhor compreensão entre as pessoas, ver nosso trabalho bem recebido, a ajuda que recebo e dou a colegas… Hoje estou no Conselho da Abrates como secretaria geral. É uma honra incrível e um trabalho que me traz o maior prazer. Já havia servido à associação de tradutores dos Estados Unidos (ATA) como administradora da Divisão de Intérpretes e presidente do capítulo da Flórida (sou cofundadora do mais recente; servi como presidente nos dois); sirvo à Associação de Tradutores e Intérpretes Forenses dos EUA (NAJIT) como editora de sua publicação on-line semanal; estar no Conselho da Abrates é voltar ao ponto geográfico onde minha carreira começou e ajudar colegas a evitarem as dores de cabeça pelas quais passei.

MELISSA – Não, jamais. Embora a solidão de trabalhar em casa seja algo difícil em alguns momentos, há algumas saídas para isso. Mas apesar de qualquer dificuldade, eu nasci para a tradução.

 

Com tantos anos de experiência e já tendo realizado tantas atividades, há algo mais que ainda gostariam de realizar?

GIO – Estou trabalhando na área de eventos profissionais. Quero levar eventos aos colegas que não têm oportunidade ou condições de viajar. Agora, com o WebRCT, as possibilidades estão à mão. Como ainda estou me dedicando à minha nova aventura, não quero me aprofundar muito no assunto.

MELISSA – Eu gosto muito de coaching. Acabo não tendo muito tempo para me dedicar a isso, mas é algo que tenho tentado encaixar. No dia 25 de setembro, por exemplo, darei uma oficina sobre finanças para tradutores na Universidade de Nova York (NYU). O evento será realizado pelo New York Circle of Translators.

 

Esse bate-papo poderia se estender por horas, mas já foi um menu da alta gastronomia delicioso. É ótimo saber um pouco mais sobre os colegas e tê-los como inspiração. Neste mês do tradutor, desejamos muito sucesso a essas duas profissionais, que levaram a competência dos tradutores e intérpretes a outras fronteiras.

Por Ligia Ribeiro

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