Legendagem – A importância do aprendizado

Este artigo tem uma conotação diferenciada de outras publicações do blog Arca do Saber, pois ele dá, literalmente, um puxão de orelha em quem teima em realizar legendas sem o mínimo preparo. Quer saber mais? Vamos lá!

A legendagem é um gênero de tradução que é muito discutido e criticado, tanto no bom como no mau sentido, devido à sua visibilidade. As produções pipocam aos montes e, por esse motivo, precisam de legendas realizadas com urgência, o que acaba impactando na qualidade final. Por quê? Quando um estúdio ou uma empresa de entretenimento recebe uma obra, por exemplo, uma série com vários episódios, a veiculação na mídia deve ser realizada o mais rapidamente possível. Esse ritmo de fórmula 1 acaba gerando uma quase insanidade mental e cansaço nos pobres dedinhos (lembra da canção da Eliana?) do tradutor/legendador. O tempo, por si só, já é um inimigo desse profissional, que somado à cobrança de prazo para a entrega do trabalho gera como resultado um produto final de qualidade, às vezes, duvidosa. Isso sem falar, em grande parte, na ausência de revisor para a tradução; a legenda é embutida/queimada no vídeo e segue o seu caminho até a exibição na telinha ou telona, sem que haja revisão do conteúdo.

Esse primeiro cenário exposto resulta no que já sabemos: críticas dos telespectadores e dos próprios colegas de tradução, principalmente em grupos de redes sociais. Há uma maneira de evitarmos isso? Sim, mas geraria um custo adicional às empresas, haja vista que seria necessária a contratação de revisores, e esse incremento de despesa nem sempre é bem-visto. Por outro lado, cabe ao tradutor essa revisão, como parte do seu trabalho, pois é óbvio que um bom tradutor deve revisar o seu projeto antes de entregá-lo. No entanto, é aí que chegamos à discussão sobre o tema deste artigo: a importância do aprendizado. Infelizmente, há muitas pessoas que acham que legendar é algo simples e que qualquer um pode fazer. Vejamos alguns comentários:

  • — Baixo vídeos do YouTube e legendo… simples.
  • — Fiz intercâmbio e morei dois anos nos Estados Unidos. Sei todas essas expressões coloquiais atuais, gírias, etc. Legendar é moleza.
  • — Falo inglês, mas o que não sei “jogo” no Google ou em outro dicionário eletrônico e traduzo. Depois é só incluir no programa para legenda.
  • — Baixei o software Subtitle Edit ou o Workshop e busquei tutoriais em vídeos no YouTube; como sei inglês, comecei a legendar.
  • — Tenho curso completo de inglês, adoro filmes, baixei o SW pela internet e vejo e leio tutoriais no YouTube e no Google. Quando tenho dúvidas, pergunto lá no grupo de tradutores, pois sempre há alguém que dá uma dica.

 

Esses são só alguns comentários que já ouvi. Por incrível que pareça, alguns deles foram de colegas tradutores… Retornando ao propósito deste post, eis algumas considerações que julgo relevantes:

  1. Baixar vídeos para legendar pode ser útil para praticar. Quanto mais você pratica, mais assimila o conteúdo do que foi aprendido, seja do idioma ou do software que escolher para realizar a legenda. E há como você baixar vídeos do YouTube para esse exercício. No entanto, se você não fez um curso de legendagem, acabará cometendo erros de padronização e de configurações exigidas pelas empresas. Além disso, se não estudar o português, certamente haverá erros de gramática na sua legenda.

2. Baixar programas para realizar legendas como o SE ou SW ou qualquer outro. Se você é autodidata, é normal que absorva conteúdos explicativos de tutorial de algum software específico e que consiga operá-lo por si mesmo. No entanto, sempre haverá dúvidas sobre algumas configurações e, nesse momento, precisará de ajuda. É normal buscar auxílio em grupos de redes sociais. Aliás, tudo bem se tiver uma dúvida ou outra, mas ficar postando perguntas a torto e a direito acaba causando mal-estar no grupo; isso sem falar na imagem nem um pouco profissional e na geração de dúvidas quanto à sua capacidade tradutória.

 

Alguns erros de legendagem que podem ocorrer se você não tiver o conhecimento apropriado sobre a área:

– ultrapassar o número máximo de caracteres por linha;
– não respeitar o intervalo mínimo entre cada legenda, que pode variar, dependendo do cliente;
– deixar a legenda vazar para o quadro seguinte (shot changes);
– não respeitar o tempo mínimo e máximo de permanência da legenda na tela;
– não analisar a relação tempo/caracteres exigida pelo cliente;
– ausência de itálico em situações em que ele é exigido;
– sobreposição de legenda em cartelas ou outras legendas que são visíveis na produção, ou seja, não elevar devidamente as legendas;
– não sincronizar a legenda passada de um software a outro;
– não voltar o time code ao padrão do cliente;
– não saber operar com arquivos criptografados;
– configurar inadequadamente os intervalos;
– configurar incorretamente a velocidade da leitura;
– não saber quando separar os segmentos em duas linhas;
– queimar a legenda de forma incorreta no vídeo;
– outros problemas incluindo os gramaticais.

 

Realizar um curso é muito positivo por diversas razões. Veja algumas:

a) mais conhecimento adquirido por profissionais que têm experiência na área e que já passaram por muitas dificuldades com as quais você certamente acabará se defrontando;

b) possibilidade de sanar as dúvidas que sempre surgem;

c) obter dicas e orientações sobre especificidades de algum software; e

d) inclusão do certificado no seu currículo e/ou portfólio mostrando o seu interesse no aperfeiçoamento.

 

Como encontrar um curso certo?

Primeiramente, defina o seu objetivo: qual curso quero realizar. Depois, faça uma busca por escolas que ministram o curso específico, por meio do Google, LinkedIn, Facebook, etc. Liste as opções que mais lhe chamaram a atenção. A partir daí, analise o conteúdo do curso, a duração, quem é o professor, qual é o tempo de experiência que essa pessoa tem como profissional da área e também como instrutor. Aqui, uma ressalva: não adianta um especialista na área sem didática; você não conseguirá aprender

Verifique também em que local o curso será apresentado, se a realização será online ou presencial, se haverá um certificado de conclusão, se haverá exercícios de fixação do conteúdo ou se o curso será só explanativo, qual o valor e a forma de pagamento, etc. Em seguida, peça referências a colegas e amigos que já realizaram esses cursos. Após toda essa avaliação, coloque prós e contras em cada um dos cursos selecionados e escolha o que melhor se adequar aos seus objetivos e à sua condição financeira.

 

Aproveito este artigo para recomendar, de olhos fechados, um curso excelente: Prática Intensiva de Legendagem da escola GTC Treinamento. Realizei o curso e afirmo que as professoras Sabrina Martinez e Marianna Tavares têm todas as qualificações necessárias para ministrar esse curso, além de mais de 18 anos de experiência na área. A Arca do Saber sempre procura levar aos leitores informações de qualidade e essa indicação não poderia faltar.

A legendagem é um dos gêneros da profissão de tradutor. Merece respeito, atenção e profissionalistmo de quem a realizar.

Por Ligia Ribeiro

 

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