Legendagem para iniciantes

O mercado de legendagem está cada vez mais aquecido, e é claro que os estúdios e os clientes precisam de profissionais capacitados para suprir essa demanda. Porém, há muitas pessoas que ainda não dispõem de conhecimento sobre esse gênero de tradução. Sendo assim, resolvi escrever este artigo para compartilhar dicas, orientações e regrinhas básicas aos aspirantes a legendistas. Vamos lá!

O script do material a ser legendado é sempre enviado ao legendista?

Não. Na maior parte das vezes, o legendista recebe o script quando se trata de produções ligadas à indústria cinematográfica, como por exemplo, filmes, desenhos, seriados, etc. Mas não é uma regra geral. No caso de legendas institucionais, é mais difícil o tradutor receber o script do cliente/empresa. Por isso, é muito importante um bom conhecimento do idioma original da produção (source/texto de partida) e um ótimo conhecimento do idioma para o qual ela será traduzida (target/texto de chegada).

Por que há diferenças entre a dublagem e a legendagem em uma mesma produção?

Eu mesma já fiz essa pergunta quando iniciei na tradução audiovisual.  Achava que o tradutor que fazia a tradução para dublagem também realizava a legendagem daquele filme, por exemplo. Isso pode até ocorrer, mas geralmente são tradutores diferentes. O uso do glossário talvez pudesse ser uma maneira de equalizar os textos, em se tratando de terminologias específicas. Mas, às vezes, esse alinhamento não é possível devido a alguns fatores, como por exemplo: o sincronismo e o tamanho da legenda. Na dublagem, você busca uma palavra dentro do contexto que se encaixe na boca do personagem. Na legendagem, essa preocupação com o sincronismo labial não existe. Porém, você tem que prestar atenção ao número de caracteres que compõem a legenda. Uma determinada palavra pode ser utilizada em uma fala de dublagem, mas não na legenda, por questões de espaço.

O que é marcação de legenda (spotting)?

De forma bem simples, é a marcação dos segundos em que uma legenda entra e sai da tela. Tanto para legendas, como para marcações, há vários programas que podem ser utilizados, como por exemplo: Subtitle Edit, Subtitle Workshop e Aegisub. Deve-se ter cuidado para que a marcação coincida com a fala, evitando que ela apareça na tela antes ou depois das falas dos personagens.

O que significa “queimar uma legenda”?

Nada mais é do que você embutir a legenda no seu vídeo, antes de enviá-lo ao contratante. Nesse processo, você fixa a legenda e entrega o projeto prontinho para o cliente. Há agências e estúdios que preferem que você não faça a queima, mas isso será discutido quando você receber o seu projeto. Para a queima, é utilizado um software específico. Nele, é possível fazer muitas configurações: de resolução, de cores da legenda, de formato, etc. Eu gosto muito do Format Factory. É bem simples de usar. Para quem está iniciando, ele é ótimo. Recomendo.

Quanto tempo a legenda fica na tela?

Entre um e seis segundos, ou seja, ela não deve ficar menos do que um segundo nem mais do que seis para não desviar a atenção do telespectador das imagens que estão sendo exibidas.

Falando sobre linhas e caracteres

A legenda deve ter, no máximo, duas linhas. Cada legenda pode variar de 30 a 40 caracteres. Geralmente, uma legenda para a TV tem entre 30 a 35 caracteres; uma legenda para o cinema, de 35 a 40.

 

Uso de maiúsculas

As letras maiúsculas (caixa-alta) devem ser usadas para a grafia de letreiros, cartazes, placas e outros itens que sejam relevantes ao projeto.

Uso de aspas

1) Em palavras estrangeiras:

Há palavras que têm já estão aportuguesadas. Nesse caso, não é necessário o uso das aspas. Exemplo:

Ele tomou uma garrafa de uísque. (= whisky)

Há vocábulos que mantêm a escrita no idioma original, pois já são aceitos no idioma português. Também não há necessidade de usar as aspas. Exemplo:

Ela é a diretora de marketing.

O coffee break já está servido.

Há outros que são mantidos no original, pois não há equivalência em português.  Nesse caso, a palavra deve ser grafada entre aspas e em itálico. Veja este exemplo:

CENA

Um casal chega a um hotel em Barcelona e é recepcionado por um atendente, cujo idioma nativo é o espanhol. Portanto, a sua fala será grafada em itálico e entre aspas:

Bienvenidos a nuestro hotel!”

NOTA

Para saber se há um vocábulo equivalente em português, acesse o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa).

 

2) Em nomes de jornais, livros, revistas, músicas, filmes…

Ontem, assisti ao filme “O Chamado”.

Ela lê o “The Times” todos os dias.

NOTA

Observe que nos exemplos acima, a letra inicial de cada palavra está em maiúscula.

 

3) Para citações e discursos diretos. Exemplo:

O ladrão gritou: “Todo mundo quieto!”

 

4) Durante a leitura de um bilhete, um artigo, uma nota, uma carta…

Aqui, cabem algumas informações extras. E para deixar claro, imagine a seguinte cena:

CENA

A mulher acorda, não vê o marido, vai até a cozinha e encontra um bilhete na mesa, deixado por ele. Como será a grafia da legenda? Veja abaixo:

  • Entre aspas e com grafia normal: “Volto logo, amor!”

  (Caso o bilhete seja lido em voz alta pela esposa)

 

  • Entre aspas e itálico: “Volto logo, amor!”

  (Se o bilhete for lido em silêncio, sem abertura de boca da personagem)

 

  • Em itálico e sem aspas: Volto logo, amor!

  (Se for a voz de quem escreveu o bilhete, neste caso, a do marido que está em OFF)

 

Uso de hífen em diálogos

Você já deve ter notado que em algumas produções (filme, série, desenho, etc.) aparecem duas linhas juntas, com hífen, em falas de personagens diferentes, conforme o exemplo abaixo:

 

Normalmente, isso ocorre para facilitar a leitura do telespectador, diminuindo a poluição visual de legendas na tela. O telespectador terá tempo hábil para ler o que está escrito e ver as imagens, acompanhando e entendendo melhor as cenas exibidas.

NOTA

Não deve haver espaço entre o hífen e a fala.

 

Uso de itálico

Veja algumas situações em que ocorre o uso do itálico:

1) Conforme mencionado na explicação sobre o uso das aspas, o itálico é utilizado quando for a voz de quem tiver escrito um bilhete, uma nota, uma frase, uma carta ou qualquer outro texto.

2) Quando o personagem que está falando não está na cena, ou seja, ele está em “OFF”. Por exemplo:

CENA

No vídeo, aparece a imagem do pai, sentado na sala e assistindo a um jogo de futebol. O filho está no quarto; não aparece na cena. Veja o diálogo:

-Pai, onde está a chave do carro?

-No mesmo lugar de sempre.

Observe que a fala do filho, que não aparece na cena, deve ser grafada em itálico. A do pai, continua com grafia normal.

 

3) Quando houver falas vindo do telefone, da TV, do rádio, do alto-falante, etc.

CENA

Na tela, uma dona de casa está preparando o almoço e atrás dela, na televisão, está sendo exibido um noticiário:

Amanhã, a temperatura atingirá 30 graus.

A fala será toda grafada em itálico.

 

Considerações finais:

1) Não separe os substantivos de seus complementos.

2) Não separe os verbos de seus complementos.

3) Não deixe conjunções, artigos nem preposições isoladas no fim da linha.

4) Pense na estética, na melhor visualização na tela. Evite uma linha muito extensa e outra curta, na mesma legenda.

5) Observe a regência e a concordância nominal e verbal.

6) Preste atenção à época da produção, ao estilo de linguagem, aos nomes, ao local, às conversões (medidas, distância, temperatura, etc.), entre outros detalhes. Pesquise sempre.

7) Ao terminar a tradução e a marcação, reveja a produção inteira. Analise se o texto está coerente ou muito literal. Revise tudo.

 

Na legendagem, há muitas outras regrinhas que normalmente constam do manual de estilo do contratante. As agências e os estúdios costumam disponibilizar esse guia para que você siga as orientações nele contidas. Mas não é uma regra geral; pode ser que você não o receba. Se você tiver um projeto de um cliente direto/empresa, por exemplo, é mais provável que ele não tenha essa informação disponível. Então, cabe a você fazer pesquisas, conversar com colegas e amigos que já atuam na área ou realizar um curso de legendagem, o que seria aconselhável. Em um curso, você poderá obter informações sobre as regras, o estilo, os programas que estão no mercado e que são mais utilizados e outras particularidades.

Mas qual curso devo realizar?

Na minha opinião, o que oferecer o melhor custo x benefício. Veja o que eu considero em uma avaliação:

 

Duração do curso – É um curso de curta ou longa duração? Qual é a carga horária? Quantas horas por dia ou por semana? Qual será a data de início e de término?

Conteúdo – O que será visto durante o curso? Que tipo de material de apoio você receberá?

Formato – O curso será presencial? Em qual local? Haverá um computador para cada aluno ou você terá que dividir o equipamento com outro colega? O curso será online? Como serão dadas as aulas? Por Skype ou por outra plataforma? Haverá um chat durante as aulas para esclarecer as dúvidas e interagir com o professor e os colegas? Será possível enviar e receber algum link ou material extra por meio da plataforma? Você terá que fazer algum download específico para acessar o curso?

Software – Qual software será utilizado durante o curso? Se o curso for online, qual será o programa que deverá ser baixado? De qual site você terá que fazer o download? Qual a versão do software?

Professor – Qual é a experiência do professor na área de legendagem? Ele é conhecido? Ele possui didática? Ele costuma dar dicas e informações extras ou ele segue estritamente o que consta na sua apresentação? Pesquise sobre isso. Fale com colegas que já fizeram o curso. Às vezes, o profissional tem muita experiência, mas sente dificuldade em transmitir os conhecimentos a terceiros, gerando morosidade e confusão na hora de explicar o conteúdo. Ou o contrário, ele é muito rápido nas explicações e acaba ocasionando problemas quanto à assimilação do que é exposto.

Exercícios – Haverá exercícios para a fixação do aprendizado? Se houver, como eles serão corrigidos? O professor analisará os exercícios de cada aluno ou por amostragem?

Valor – Este item é muito importante. Há vários cursos bons no mercado, mas é preciso fazer um comparativo entre o que estará sendo apresentado e o valor a ser cobrado. Na minha opinião, eu levaria em conta todos os fatores mencionados acima, além do retorno real.

Faça as seguintes perguntas: “O que eu agregaria realizando determinado curso?” e Por que devo optar por esse curso em vez do outro?.

Antes de ingressar em um curso, pesquise todos os disponíveis no mercado e elabore uma tabela simples com prós e contras de cada um. Veja qual é o diferencial entre eles e que tipo de informação você obterá. Se forem só detalhes ou informações básicas, você poderá obtê-los pela internet, gratuitamente, ou em grupos nas redes sociais, ou até por meio de colegas que são legendistas. Veja também se há exercícios e se eles serão corrigidos. Acredito que os exercícios sejam fundamentais para a fixação do conteúdo. Do que adianta você receber um volume de informações e depois não se lembrar do que foi explicado durante o curso? Vá por mim, na hora “H”, você ficará a ver transatlânticos, pois o seu projeto tem um prazo para a entrega, que normalmente é curto, e você não terá tempo para pesquisar ou para obter um retorno rápido de um colega. Os exercícios fazem parte da assimilação e servem como material de consulta.

 

Dica:

Acesse a plataforma AMARA. Há várias opções de projetos voluntariados, inclusive o do TED. É ótimo para praticar.

Para finalizar este post, se você gosta de tradução audiovisual e quer ingressar na legendagem, saiba que é um trabalho que exige muita dedicação, mas o retorno é extremamente prazeroso. Espero que tenha lhe ajudado a entender um pouquinho sobre esse universo.

Sucesso nessa nova escolha profissional!

Autora: Ligia Ribeiro

 

 

 

 

 

 

8 thoughts to “Legendagem para iniciantes”

    1. Olá, Jaell.
      Muito obrigada. É muito bom saber que o conteúdo é útil para quem tem dúvidas e se interessa pela legendagem.
      Abraços.

Gostaria de ler seu comentário sobre o post.