IX Congresso ABRATES – Palestra II

No domingo, 17 de junho de 2018, só pude assistir a três palestras. Primeiro, porque resolvi fazer uma massagem. Hã? Sim, o tradutor também precisa relaxar e eu aproveitei essa oportunidade que a ABRATES ofereceu aos participantes. Excelente! Segundo, porque antecipei o meu voo e não foi possível ver o encerramento. No entanto, mesmo sendo um dia mais curto, as três palestras a seguir fecharam com chave de ouro a minha participação no congresso.

 

Palestra:  Audiodescrição em cena: O processo criativo da audiodescrição no espetáculo “É proibido miar”

Palestrante: Kemi Oshiro Zardo

Por que escolhi esta palestra? Primeiro, porque ingressei na audiodescrição e o conteúdo obviamente me interessou; segundo, porque estava curiosa para saber como é elaborado um projeto de teatro com a audiodescrição sendo realizada não por audiodescritores, mas pelos próprios atores.

A Kemi explicou que o projeto levou um ano para ser executado. Apesar de alguns aspectos burocráticos, não mencionados aqui, houve comprometimento total dos artistas e a consciência plena da importância da inclusão no contexto geral, levando em consideração a qualidade do projeto e a possibilidade de sua realização.

Etapas do projeto:

  • Leitura do livro
  • Construção da dramaturgia
  • Improvisação de cenas com descrição
  • Inserção de textos
  • Ensaio
  • Ensaio de Libras

Durante a apresentação, foi mostrado um vídeo com depoimentos dos atores, dos responsáveis por toda a organização do espetáculo e dos espectadores, incluindo pessoas com deficiência visual.

O espetáculo conquistou três prêmios Tibicuera de teatro para crianças:

  • Iluminação: Casemiro Azevedo;
  • Ator coadjuvante: Douglas Dias; e
  • Atriz coadjuvante: Juliana Kersting.

Depois do trabalho intenso dedicado à essa peça, o processo de inclusão e de interação entre pessoas com boa visão e as que possuem deficiência visual foi alcançado com êxito. Parabéns a todos por esse belíssimo projeto!

 

Palestra:  Do e-mail ao primeiro projeto: a saga do processo seletivo em uma agência de tradução

Palestrante: Mitsue Siqueira

Uma palestra imperdível aos tradutores iniciantes. Por que participei? Apesar de não ser mais iniciante, haja vista que já traduzia textos médicos e da área de ingredientes antes de me tornar tradutora em período integral, em 2016, resolvi assistir a esta palestra por três motivos:

  1. O blog “Arca do Saber” tem como principal objetivo compartilhar conhecimentos, principalmente aos tradutores que estão iniciando na tradução, e o tema estava de acordo com esse propósito.
  2. O tema da palestra estava relacionado ao processo seletivo em agências de tradução e nada melhor do que receber as orientações de quem trabalha direto com uma agência. A veracidade das informações é um ponto-chave.
  3. No início de 2017, realizei um projeto com a TransMit e observei de perto a qualidade do trabalho da palestrante, o que agregou mais um valor a minha escolha: a credibilidade.

Com base nesses dados, a contestação foi unânime: uma excelente palestra. Mitsue começou a sua apresentação reforçando a necessidade de se fazer uma reflexão sobre o que um tradutor é/faz hoje e o que ele pretende/deseja realizar no futuro. Por que essa reflexão é importante? Porque o tradutor precisa se conhecer, saber os pontos que têm a seu favor e os que ainda precisam ser lapidados, quais os conhecimentos que já possui e os que necessitam ser adquiridos para que ele possa alçar o seu voo de forma mais concisa e com segurança.

Currículo

Na busca de um trabalho em uma agência de tradução, a primeira ação de um iniciante é a preparação do seu currículo. O que realmente chama a atenção de uma agência?

  1. Pares de idiomas. Sempre mencione os pares de idiomas no seu currículo e na sua carta de apresentação. Se você faz tradução do inglês para o português só de textos jurídicos e versão do português para o espanhol de textos médicos, por exemplo, especifique essa informação.
  2. Informe o que você faz. Tradução e versão de quais textos? Legendagem de quais gêneros? Revisão de cotejo ou simplesmente proofreading? Detalhe as atividades o máximo que puder.
  3. Evite incluir qualidades subjetivas, por exemplo: sou organizado, atento, cuidadoso, etc. Foque nas informações práticas: utilizo as CAT tools tais, a minha produção é de tanto, etc.
  4. Especifique a sua área de atuação e a sua área de interesse. Se você não tem experiência, mencione que tem interesse em realizar determinada atividade relacionada à determinada área. Uma dica é realizar trabalhos voluntários e incluí-los no currículo, o que acaba sendo uma experiência válida.
  5. Envie o seu currículo à pessoa responsável pela contratação. Uma dica que dou é buscar essa informação no perfil da empresa/agência, no LinkedIn.

Formulário

Algumas agências pedem que você preencha um formulário que pode ser enviado por e-mail ou disponibilizado no site das próprias agências. Mesmo que você tenha incluído todos os dados no seu currículo, atente-se a esse preenchimento, pois os PM (Gerentes de Projeto) fazem a busca de tradutores em seu banco de dados com base nessas informações.

Produtividade

Uma pergunta que sempre é feita pela agência é: “Qual é a sua produtividade?”. Para calculá-la, faça essa conta simples:

Determine o número de palavras que você traduz por dia e por hora. Como realizar esse cálculo? Escolha alguns textos e os traduza, cronometrando o tempo que levou para traduzi-los. Estabeleça um resultado por hora, ou seja, quantas palavras você traduziu em um período de uma hora. Suponhamos que você tenha traduzido 2.800 palavras em oito horas. Se você fizer a divisão, o resultado será de 350 palavras/hora* (guarde este número). Você já sabe qual é a sua produtividade aproximada.

Disponibilidade

Outra pergunta também feita pela agência é: “Qual é a sua disponibilidade?”. Aqui, cabe ressaltar a importância de você saber quantas horas deseja dedicar à essa agência. Alguns tradutores mencionam o período 24/7, o que significa que eles estariam disponíveis 24 horas, em todos os dias da semana. Além de parecer estranho, é completamente inviável, pois o tradutor não é um robô e precisa dormir, se alimentar, cuidar de assuntos pessoais e das necessidades básicas, além da diversão. Portanto, é preciso ser sincero e pensar nos outros clientes e projetos que certamente surgirão e para os quais você também precisará dispor de tempo.

Abertura de empresa

É necessária a abertura de uma empresa para se trabalhar com uma agência de tradução? A maioria das agências brasileiras não impõem essa condição ao tradutor. No entanto, você estará prestando um serviço e o certo seria emitir uma nota fiscal referente a ele.  Há a possibilidade da emissão do RPA, mas grande parte dos clientes não aceita devido ao valor de impostos pagos por eles; outra alternativa seria a abertura de uma ME ou Eireli (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada), mas nem sempre o tradutor iniciante tem capital suficiente para essa tomada de decisão. Muitos optam por uma organização cultural que emite notas fiscais. Embora as notas sejam autênticas, o problema é que se essa organização não efetuar o repasse dos valores às autoridades competentes, pode haver o efeito cascata e, claro, o problema também atingirá o tradutor. E, na verdade, por ser uma entidade sem fins lucrativos, não poderia contabilizar serviços econômicos, mas… deixemos esse um assunto para outra ocasião.

Valor a cobrar

A pergunta mais complexa é referente ao valor a ser cobrado pelo tradutor. Muitos tradutores que estão iniciando não têm ideia de quanto cobrar. Os valores de referência da tabela do SINTRA não são relacionados aos valores de agências brasileiras, mas sim aos valores de clientes diretos.  Na palestra, Mitsue fez um cálculo rápido e simples, mas que pode ser complementado com mais informações que o tradutor julgar relevantes. Veja o exemplo abaixo:

Em uma planilha, faça uma lista de todas as suas despesas mensais durante todo o ano e inclua cursos, eventos, viagens, férias, materiais, móveis, eletrônicos, luz, água, seguros, IPVA, impostos, etc. Depois some mês a mês. Suponhamos que você precise ganhar R$ 2.000,00 por mês para cobrir todas as suas despesas mensais. Guarde esse valor e faça o seguinte cálculo:

  1. Quanto deseja ganhar por mês: R$ 2.000,00. Quantos dias pretende trabalhar por mês: 20 dias. Se você dividir o valor pelos dias, obterá R$ 100,00/dia.
  2. Quantas horas por dia deseja trabalhar: cinco horas. Divida os R$ 100,00 pelas cinco horas e obterá R$ 20,00/hora.
  3. Lembra das 350 palavras* que você traduziu por hora? Para saber quanto você deve cobrar por palavra basta dividir R$ 20,00 por 350; o resultado final obtido será R$ 0,06, arredondado.

Esse é um exemplo básico, mas já serve como parâmetro para que o tradutor iniciante possa ter uma ideia da composição do seu custo.

Teste

As agências pedem que o tradutor realize um teste para se certificar da qualidade da sua tradução, dentro da sua especialidade. Porém, quais são os critérios de avaliação do teste? Normalmente, uma agência costuma pedir uma tradução de aproximadamente 300 a 500 palavras, às vezes um pouco mais, no entanto, desconfie se for um volume superior a 1.000 palavras.

Quando o tradutor receber o teste, deve se atentar aos manuais de estilo, às memórias de tradução, ao glossário e também a possíveis erros no texto fonte. Não são todas as agências, mas algumas até enviam um texto com erros para observar a atitude do tradutor. Portanto, fique atento e se detectar algum erro, faça comentários no teste notificando esses erros.

Contrato

É normal haver um contrato firmado entre a agência e o tradutor. Antes de assiná-lo, leia com cuidado todas as cláusulas e se atente as que se referem a: prazo, preço, formas de pagamento e rescisão.

No caso de um contrato entre você e um cliente direto, as cláusulas acima são essenciais, além da inclusão das informações bancárias, parcelamentos ou descontos. O melhor é consultar um advogado para ter certeza de que as cláusulas estão dentro da lei.

Agência ou cliente direto

É melhor trabalhar para agências ou para clientes diretos? Isso só depende de você. Quando você trabalha para uma agência, a sua responsabilidade se limita a realizar o serviço solicitado; por outro lado, o trabalho com cliente direto exige a captação, a criação de uma estrutura empresarial que atraia os clientes e gere confiança e credibilidade, a manutenção de uma estrutura técnica e financeira e outras particularidades.

 

Palestra: Gerenciamento e curadoria de redes sociais para tradutores

Palestrante: Caroline Alberoni

A última palestra antes de voltar para São Paulo. Ainda não havia assistido a uma apresentação da Caroline, embora já soubesse o quanto ela é profissional, e queria saber mais sobre as redes sociais, das quais ela entende muito bem.

Carol tem um blog e perfis no Facebook, Twitter, LinkedIn, Instagram e compartilha podcast e vídeos no YouTube. Resumindo, ela tem uma presença marcante na mídia social. Mas como cuidar de tudo isso? A primeira dica foi em relação ao perfil no Facebook. Nesse canal, é possível criar um perfil social e uma página com foco mais profissional, e é preciso saber diferenciar as duas, tomando cuidado com as postagens, evitando discussões desnecessárias, selecionando as pessoas que podem acessá-las e alimentando-as com informações adequadas a ambos os perfis.

No Facebook, há a opção de incluir dois tipos de fotos: a do perfil, que é menor e fica à esquerda da página, e a foto maior que é chamada de foto de capa. A foto mais importante é a do perfil porque é ela que aparece nos comentários feitos em postagens. Por isso, o ideal é tirar uma foto frontal para que o seu rosto apareça de forma nítida.

Ainda sobre o Facebook, conforme já mencionado, é possível criar uma página. No entanto, o que publicar e com que frequência fazer a publicação de um post? Caroline costuma programar a postagem para duas vezes ao dia, uma às 9h30 e outra às 12h30. Ela faz a publicação de um post no idioma português brasileiro e outro no idioma inglês, e não publica nada durante as férias nem aos sábados nem aos domingos. Utiliza também o Hootsuite para o agendamento das postagens.

Uma dica para quem publica posts é reduzir os links. A palestrante usa o Bit.ly. Com a redução, os links ficam mais amigáveis esteticamente, além de não causar receio de se deparar com algum vírus ao clicar em um link extenso. Outra dica com relação à publicação de artigos é apagar o link após ter sido gerada a imagem em miniatura, assim evita-se a poluição visual. Ainda sobre imagens, preste atenção se a opção carrossel não está selecionada. Se estiver, mude para a visualização de imagem única.

É possível também criar listas de amigos, revisar a privacidade das fotos e também a marcação de fotos. Em geral, Caroline tem um cuidado especial ao lidar com as redes sociais, desde a escolha do canal de veiculação até o tipo de postagem, a frequência, a seleção de amizades, a criação de perfis e páginas com assuntos condizentes com a sua profissão. Sem dúvida, um cuidado que todo o tradutor profissional deve ter.

 

Essas foram as palestras de domingo que selecionei e consegui assistir. Fica o gostinho de “quero mais” para o ano que vem.

Autora: Ligia Ribeiro

Gostaria de ler seu comentário sobre o post.