A sonoridade na audiodescrição

Em produções audiovisuais, é possível a realização de descrições físicas dos personagens, das minúcias do cenário como locais, objetos, móveis, paisagens, animais, roupas e… dos sons. Entretanto, será que é necessária a descrição de todos os sons?

Ao falarmos da sonoridade, sabemos que alguns sons são passíveis de serem reconhecidos, por exemplo, o apito de um trem, que não precisaria ser descrito em uma cena. As pessoas com deficiência visual provavelmente conseguiriam associá-lo a imagens pré-concebidas em sua mente.

No entanto, você me perguntaria como isso seria possível se a pessoa nunca tivesse tido a oportunidade de estabelecer essa associação de som-imagem. Por isso, é muito importante a análise do público-alvo que difere entre si, principalmente pela faixa etária. Uma criança cega com pouca idade e que vive em uma região rural, por exemplo, pode ainda não ter tido contato com um trem, muito menos ouvido o apito tão familiar aos ouvidos de outra criança da mesma idade que já tenha aprendido sobre esse assunto na escola ou que more em uma região onde esse tipo de transporte seja comum. A pesquisa do público-alvo é extremamente vital para uma audiodescrição correta. Além disso, há sons que precisam ser descritos para um melhor entendimento da ação e para evitar qualquer dúvida quanto ao desenrolar da trama.

Imagine a cena em que um copo de vidro se estilhaça no chão. Uma pessoa com deficiência visual pode ter a percepção desse mesmo som incorporada em sua mente, no entanto, digamos que o objeto quebrado não seja um copo, mas sim uma taça, um cálice, uma garrafa, uma jarra ou qualquer outro objeto feito de vidro. A audiodescrição do objeto é perfeitamente cabível para que o telespectador cego possa compreender a ação correta na cena.

Outro aspecto importante da sonoridade é evitar a antecipação dos fatos, em específico, dos sons de uma cena. Em um filme de suspense, esse cuidado é fundamental. Ao adiantar ou revelar a ação antes que ela ocorra, perde-se o clímax que o autor da obra havia planejado para aquele momento. Veja este exemplo:

 

Cena com audiodescrição e antecipação:

Dentro da pirâmide, Marcos encontra uma câmara secreta. Em meio à escuridão, há um brilho vindo do interior. No centro da sala, uma grande arca dourada irradia luzes ao redor. Marcos entra na câmara lentamente. A passagem se fecha. [som do fechamento da entrada da câmara]

No exemplo acima, há duas menções:

1- A descrição do som é necessária. Como a passagem foi fechada? O barulho é proveniente do quê? Foi uma porta que se fechou? Obviamente, se não houver a descrição do som, não se saberá o que de fato ocorreu, e isso gerará dúvidas que podem afetar o entendimento de cenas posteriores. O barulho certamente não é de uma porta comum de um cômodo de uma casa, portanto, ele deve ser descrito. No caso do exemplo, foi uma parede da câmara que desceu e fechou a passagem. 

2- A descrição antecipada ao som prejudica o suspense. O som da parede não é perceptível, ou seja, representa o movimento de algo que não é facilmente identificado a não ser pela audiodescrição. No entanto, como é um suspense, a descrição desse som deveria ser posterior à ação. É necessário que o telespectador sinta a atmosfera da cena e ative a sua imaginação.

Portanto, a descrição correta seria:

Dentro da pirâmide, Marcos encontra uma câmara secreta. Em meio à escuridão, há um brilho vindo do interior. No centro da sala, uma grande arca dourada irradia luzes ao redor. Marcos entra na câmara lentamente. [som do fechamento da entrada da câmara] Uma parede desce e fecha a passagem.

 

Por falar no aspecto da percepção sensorial decorrente do estímulo da memória, o recurso extracampo é outro fator interessante em uma produção audiovisual. Quando as imagens não são vistas e somente ouve-se os sons, tanto as pessoas com visão total como as que têm deficiência visual podem vivenciar em pé de igualdade a mesma experiência: a ativação da memória sensorial. Quem já teve contato com um determinado som, é capaz de associá-lo à determinada imagem, sem a necessidade de visualizá-la. Em contrapartida, se um som causar incerteza da sua origem, isso pode ser benéfico ao audiodescritor, que conseguirá perceber as nuances dessa sonoridade e escrever roteiros mais adequados e que alcancem o resultado desejado: a compreensão da obra por todos, sem exceção, e o divertimento garantido.